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O segredo do poço

Estamos no ano 2.032 D.C. Os trabalhadores da mineradora New Age Enterprise estão em um fantástico empreendimento: Tentar chegar ao fundo do lendário poço Money Pit. Uma tarefa difícil, sem dúvidas. Eles, com afinco, vão escavando o poço recheado de armadilhas tão antigas quanto perigosas em busca de um tesouro que, reza a lenda, os Cavaleiros Templários teriam escondido ali quando fugiram para a América para salvarem-se da Santa Inquisição.
- Veja... Veja o que eu encontrei aqui... Acho que encontrei o tesouro dos templários!
- Como assim? Tem certeza?
- Vê você mesmo. Este é o tesouro dos templários,cara, que estamos procurando há anos. Nossa! Isso é emocionante demais. 

O último suspiro

Havia estrelas cadentes no céu da noite em que Seu Ricardo foi atacado. O relógio já mostrava mais de duas horas da manhã. Um corpo moribundo foi tudo que restou. Aquele senhor que ali estava viveu por longos 82 anos. E, ainda assim, depois de toda sua peregrinação pessoal, encontrava-se, hoje, estendido, sem poder se mover em sua cama, no último quarto do corredor do segundo andar da única casa amarela do bairro.

O Vir

Lembro da barba mal feita e do jeito que segurava o cigarro. Quanto aos olhos semi cerrados (culpa da brisa) e o sorriso, eu nem entrarei em detalhes para que meu coração não venha parar de bater.
O colchão no chão acomodava bem todo mundo, era inverno e por conta disso podíamos ficar bem perto um do outro. Alguns entravam e saiam do quarto, mas ele preferiu ficar. Tudo bem, eu pedi, mas ele preferiu ficar.
Então ele viu semelhanças, roubou meu coração e levou para a cidade quente que era dele. 
Ele fez meu coração ser dele.

Paixão à primeira vista - A história de amor de um pardal e uma angorá

Certa vez um pequeno pardalzinho apaixonou-se por uma gata, pela qual passou voando, às pressas, antes de uma consulta com Dr. Tenório. Benjamin, o pardal, destemido como nenhum outro pássaro do Bosque Verde, acordava todos os dias pensando em fazer a diferença na sua vida e na daqueles que o cercavam. Há muito, vinha se queixando de uma queda acentuada de seus penachos que vinham lhe deixando calvo.

Separação

Já passava do meio-dia quando Juliano acordou. Num porre horrível que balançava sua cabeça como se estivesse em pleno mar. Tentou se levantar e não conseguiu. O despertador tocava insistentemente em sua cabeça. Fechou os olhos. Abriu os braços na esperança de alcançar o celular. Procurou por toda a extensão da cama, como um míope que procura seus óculos. Sem sucesso.

Acordou novamente às 14 horas. O celular estava ao seu lado. Arremessou-o contra a parede. Só depois pensou que poderia ser Lorena. Levantou-se de um pulo como se a cabeça não doesse. Resgatou as partes que sobraram inteiras e começou a montar o aparelho. Ao encaixar a bateria e ligar, a dor de cabeça voltou. O som estridente que vinha do celular entrava em seus tímpanos e ele podia jurar que uma britadeira perfurava seu crânio. Atendeu.
- Alô? Oi?

Nas Pontas dos Dedos

Estava na casa da minha tia em Japeri. Lá nunca tem muito que fazer, então fui jogar com meus primos “queimado” na rua. Iniciamos a brincadeira e numa tentativa de acertar a mim, um deles joga a bola com toda a força. Passa direto. Como não tinha ninguém “morto”, fui correndo pega-la. Já me aproximando da bola, você surge. Surpreso com seu aparecimento, pergunto: O que está fazendo aqui? Sem responder, Você me beija... Momentos depois, estou novamente brincando com meus primos. 

Noite de insônia

Tentei por quatro horas dormir. Esforcei-me em vão. A cama nunca antes tão desconfortável sob meu corpo e o travesseiro, que não oferecia alento a minha cabeça, foram as causas das incontáveis vezes que rolei de um lado para o outro buscando encontrar a posição ideal.

Nesta noite não fui feliz, como, de fato, nunca tinha sido. O sonho acordado me revelou as verdades que sorrateiramente se escondem na rotina do dia-a-dia. As janelas da mente se abriram como se quisessem revelar aspectos obscuros da natureza humana.
Descobri que amar não é fácil, que sonhar é necessário e que viver só vale a pena se for no amor. Peguei o telefone e várias vezes liguei sem que do outro lado da linha alguém me atendesse. Senti-me só. O desconforto de viver sozinho é de fato o sentimento mais atemorizante que existe.

Talvez, o inicio

“Não, você não vai beber”. De nada adiantou. Ele pediu uma taça de vinho e foi-se a primeira. Não era acostumado com álcool, então logo se deixou envolver por uma realidade instantânea, aparentemente mais fácil. “Mais uma, por favor,”, pedia mais uma vez. “Você não vai beber mais, chega!” dizia eu com certa irritação. “Irei beber sim, me deixa!”, respondia ele autoritário. Calei-me, decidi não dizer mais nada. Iria por agora apenas olhar. “Sabe o que deve ter um gosto melhor que esse vinho?”. Espantei-me ouvindo, ainda mais pra quem ele direcionava a tal pergunta. “O que?”, perguntava minha amiga, já certa de qual seria a resposta. “Sua boca”, disse com um ar sedutor. Mordi-me de ciúmes, mas continuei com minha postura séria, disposta a não falar nada, nenhuma palavra. “Você está bêbado, eu não vou levar a sério nada do que falar pra mim”. “Eu não estou bêbado, amanhã vou lembrar e repetir para mostrar que é verdade o que digo”. Eu duvidava que lembrasse, e não só duvidava como também queria. Meu desejo era pega-lo pelo braço e levar pra casa sem dar o direito de defesa, mas tinha que continuar fingindo, não podia deixar que percebessem. “Você está muito bêbado, chega!”, gritava minha amiga. Peguei o copo e bebi num gole só o que restava do vinho. “Pronto, você não vai pedir mais nenhuma taça. Agora nós iremos ir embora!”, dizia eu enfim alguma coisa. Levantei a procura de um taxi, porém não havia nenhum disponível. Percebendo o quão irritada eu estava, ele fala comigo. Ignoro-o. Insistente, continua tentando fazer-me soltar alguma palavra ou até mesmo risos com algumas de suas piadas. Não teve êxito. Continuei calada e séria. Sem esperanças, foi reclamar com Fernanda sobre meu estado. Ela apenas me olhava. Sabia que a minha falta de palavras não era apenas por conta da bebida, existia algo mais, coisas das quais ela não iria se intrometer. “Fala comigo!”, se voltava ele pra mim.“Pede pra ela falar comigo”, dizia ele num tom infantil, como se tivesse pedindo socorro por não conseguir pegar o brinquedo qual não alcança. Confesso que me atingiu, fazendo-me ter vontade de abraçá-lo com toda força. Até podia, mas iria ferir meu momento de tentar encontrar uma resposta para o que estava acontecendo. Frente a isso, decidi continuar calada.

As caixas espalhadas pelo quarto...

As caixas espalhadas pelo quarto, a cama apenas com o colchão e alguns de seus pertences em cima dela fizeram meu coração apertar a ponto de doer. Não havia mais volta, não havia mais tempo para nada, era ali, o último abraço.
Ele estava sentado, como sempre esteve todas as outras vezes que eu entrei ali... Algumas delas ele usava roupas velhas, em outras estava impecável, em outras seus olhos estavam imersos em lágrimas, em outras acabara de acordar...

As encalhadas

Formavam um grupo de cinco meninas, como gostavam de se denominar. De meninas mesmo não tinham nem as bonecas mais. Reuniam-se sempre às segundas-feiras para assistir um bom filme. Às terças, jantavam fora. Pulavam as quartas. Gostavam de apreciar os atrativos culturais da cidade às quintas e, às sextas, saiam sem rumo procurando a balada do momento. 
Fernanda, a mais velha, estava na casa dos quarenta, dizia ter trinta e cinco. Havia se separado do marido há não mais que dois anos e, por influência de Márcia, a melhor amiga, acabou entrando para a trupe. Márcia, a mais conformada de todas, nunca estabeleceu um relacionamento de mais de três meses. Carolina estava com seus trinta e seis anos e, há mais de cinco, não descolava um gatinho. Ana Paula tinha o grupo como um ponto de apoio para os períodos de seca. As amigas a auxiliavam muito nos momentos de transição. Flavinha era a novata. Estava com as mais maduras havia exatos seis meses e já notara diferença em seu quadro emocional.

O poeta e a dramaturga

Nunca fui de poesias. Elas sempre me cansavam. Ah, me desculpem os poetas... Mas escrever dessa maneira não entra no meu padrão. Sou de textos, contos, artigos, sonhos. Sou de pessoas, fatos, peças que se formam dentro do meu pensamento. Todos os meus, que eu vi, que eu vivi.
As pessoas do meu meio escreviam assim, como eu escrevo. E por isso, era sempre bom ler os outros, trocar textos... Como se troca figurinhas.

Palavra Alguma

Um olhar vale mais que mil palavras. Mas então, sendo assim, que palavras a gente usa pra traduzir um olhar? Nenhuma? Mil? Três mil?
Como ficam os contos, os poemas, as histórias, estórias? Como eu fico?
Anjos, onde estão vocês agora com sua linguagem jamais ouvida, jamais conhecida?
Apareça um de vocês aqui, agora, tome meu lugar nessa cadeira velha, dura, sem acabamento e escreva o que eu senti enquanto ele olhava atentamente meu rosto.