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O amor que nos faz

Quando estamos sós
Existe necessidade de harmonia
Então depois fica assim mais fácil
Colocar-nos a junto viver

Coração

Se as pessoas usassem mais o coração
Para ver o mundo com aquela simplicidade
E enxergar o que é certo e o que vale a pena
Certamente haveria mais vida entre nós
Muito mais felicidade, movimento, amor

Era

Eu esperava muitas coisas de você, de nós dois, menos essa distância. Distância de coração!
Eu lembro da última tarde que passamos juntos, do cheiro do cigarro de canela, do vento frio do morro, de todos os outros casais juntos perto de nós, da visão do céu, de como eu me sentia tão em paz com você por perto. Lembro de tantas palavras que queriam sair mas que eu engoli cada uma.
É confuso tentar escrever sobre isso, sobre a sua falta, porque parece que eu não te conheço mais.

Aquilo que existe em você

Tem sempre um sentimento
Engrandece o coração
Deixa emoção
Coisa que não se vai
Não, nem sei dizer do como
Só mesmo que isso acontece

Da calçada

Uma casa muito quente, 
pipoca de micro ondas, 
o colchão no chão sem lençol, 
uma jarra de suco aguado, 
o teu sorriso frouxo do meu lado esquerdo, 
incomodar os vizinhos.

O meu remédio

Oxigênio. Era isso que faltava.
Depois de vários exames feitos em vários médicos durante meses, foi chegada a conclusão de que não havia nada de errado comigo.
Não havia nenhum problema com meu coração, meus pulmões, nem fígado, rins, NADA.
Meu sangue estava forte, meu cérebro funcionava perfeitamente bem.
Visivelmente eu estava ótima, não tinha como negar, porém, algo dentro de mim acontecia e ninguém sabia dizer o que era. Um vazio, uma lacuna existia.

O Vir

Lembro da barba mal feita e do jeito que segurava o cigarro. Quanto aos olhos semi cerrados (culpa da brisa) e o sorriso, eu nem entrarei em detalhes para que meu coração não venha parar de bater.
O colchão no chão acomodava bem todo mundo, era inverno e por conta disso podíamos ficar bem perto um do outro. Alguns entravam e saiam do quarto, mas ele preferiu ficar. Tudo bem, eu pedi, mas ele preferiu ficar.
Então ele viu semelhanças, roubou meu coração e levou para a cidade quente que era dele. 
Ele fez meu coração ser dele.

Panorama atual de um coração avacalhado

Minhas felicidades horríveis
Embaladas por meias verdades,
Não fazem pessoas felizes.
E hoje, movido por meras vaidades,
Fúteis e incultas, tolas e tristes,
Rogo a tua inocente cumplicidade.

Abandono a inconstância fria
Porque sei que és moça direita.
Abandono a beleza da poesia,
Pois sei que a beleza em si não aceita
Ser exclusiva do poema sem um dia
Em você encontrar sua forma mais perfeita.

Gustavo Dias

Vinho, filme, dois corpos e um amor...

Uma bela garrafa de vinho. Duas taças recheadas, que vão se acabando aos poucos, logo sendo repostas. Um bom filme a dois. Frio. Uma coberta quentinha. Dois cheiros de perfume que se completam. E ali, dois corpos que se amam. Juntos. É como se pelo menos por aquele instante, as paredes daquele quarto fossem o mundo dos dois. Eram duas almas entregues não apenas ao furor da paixão, mas aos desígnios ditados pela força do amor que existia dentro de cada um e naquele ambiente como um todo. Ah! E como é bom amar...

Sempre...

Existem momentos em nossas vidas em que podemos captar exatamente o que significa “realidade”. Com João isso não era diferente. Por muito tempo ele foi apenas um ser andante, sem rumo, ainda que sua vida tivesse caminho e direção traçados. Não estou falando de sua vida social, mas dos sentimentos desse homem. Tudo ia muito bem, mas faltava, sem que nem porque, alguma coisa. Faltava alguém na vida de João. Não que ele vivesse sozinho todos os dias. Nosso amigo procurava, se iludia com algumas, apenas divertia com outras que igualmente só o usavam para própria diversão. 
Um dia, João viu sua vida se completar. Não mais que de repente, ele cruzou, através das modernidades do mundo, com aquela que viria a ser a peça que faltava para fazer dos seus dias plenos, perfeitos. Era uma mulher linda, que lhe agradou sobremaneira pelos olhos. Mas a completude não se fazia fisicamente. Era preciso mais que apenas um belo corpo, pois de belos corpos João estava cheio. Isso ele sempre encontrou. Não era alguém apenas com uma embalagem perfeita que nosso amigo procurava. João queria mais... Ele queria o que lhe faltava. 
Teresa tinha todos os atributos que faziam de um homem alguém feliz. Mas ela era diferente. Tinha um jeito de ser, de pensar, de agir, que preenchiam todo vazio que João sentia. A cada conversa ele sentia mais isso. Surreal é a melhor definição para Teresa. Era intempestiva, indefinível, meio teimosa... Ela era tudo que João sonhou e escreveu em suas escondidas poesias. Sabe, como um perfeito encaixe de almas? Era isso... Eles eram almas complementares. Mas era preciso convencer o coração disso. Não... Não o de João. Este foi tomado plenamente por aquela jovem faceira e dona de um talento único para a arte. Era preciso convencer o coração dela, pois este ainda não batia no ritmo do de João, por já ter um dono. 
O primeiro grande problema era a distância. Teresa morava longe, e isso fez com que João a perdesse mais rapidamente. Culpados? Não, nas coisas do amor eu creio que não existem culpados, nem vitimas. Logo João entendeu que esta não seria uma história fácil para ele. E nosso amigo nem podia fazer nada. A não ser se conformar com aquilo, e seguir procurando. Certamente ele acharia outro coração mais próximo, disponível, livre mesmo. Isso João combinou direito com sua mente. Mas quando o coração ficou sabendo, não aceitou, de maneira nenhuma. Não vou dizer aqui que João não sofreu nesta briga consigo mesmo. Como foi dolorido negar para si mesmo um amor que era puro, e que se negava a deixá-lo. 
Foi então que João resolveu fazer um acordo com seu coração. Foi um pacto de não-agressão. E foi assim que esse cavaleiro andante conseguiu voltar à vida. Na verdade, tudo andava normalmente, mas o sofrimento pelo amor distante e, ao menos naquele momento, impossível, fazia com que João não conseguisse enxergar alegria. Era como se lhe tivessem roubado as cores dos dias. Com esse acordo consigo mesmo, ele conseguiu voltar à normalidade. Não discutia mais com seu coração, pois sabia que, ainda que longe e sentimentalmente desligada, era Teresa a pessoa que lhe completava. João tinha esperança de que o tempo levasse o sentimento consigo. 
Mas ele parou de procurar, pois, inevitavelmente, nosso amigo acabava comparando Teresa com as novas mulheres que conhecia. Não... Não era a mesma coisa. Não lhe interessava procurar mais, afinal, e nisso o coração dele tinha razão, João já encontrara a estrela da sua vida. Era incoerente e ilusório enganar alguém para esquecê-la. Existirão pessoas que, lendo isso aqui, o chamarão de tolo. Mas, pense bem, pois se você acha isso talvez não tenha amado ninguém de verdade, com vontade, intensidade e plenamente em sua vida. 
E a vida, em seu carrossel de acontecimentos, tornou a colocar João diante de Teresa. E o amor dele por ela não tinha sumido, mas, pelo contrário, estava mais forte e sólido que nunca. E, numa dessas conversas, ele soube que ela tinha um sentimento de amor por ele, talvez já há tempos, quem sabe desde sempre. E João descobriu que Teresa estava solteira. Seria hipócrita dizer que seu coração não pulsou quando ele soube disso. Droga, ele era humano! E humanos sentem. Por mais que ele quisesse respeitar a dor, natural do fim de uma relação, que Teresa tinha, ele a AMAVA. E isso era verdadeiro... Era profundo... Era puro! 
João queria abraçar sua amada, mas vivia um novo conflito. Seu coração o mandava dizer a ele o quanto a amava, e queria poder mostrar que conseguiria a fazer feliz, mas isso lhe parecia ser um aproveitador da fragilidade de Teresa. E, não, ele não era, definitivamente, um aproveitador. João sempre viveu sabendo que não devia fazer com ninguém o que não quisesse que fosse feito com ele. E ele detestaria ser alvo de aproveitadoras. Entenda, meu amigo leitor, não estou falando de sexo, de um prazer momentâneo que se vai de modo tão fugaz quanto veio. Falo de sentimento, de amor, um sentimento que pode nem ser tão explosivo, mas que com certeza é duradouro. E também da verdade com que João sempre vivenciou quando falava de Teresa. 
Enfim, estavam frente a frente João e Teresa. Estavam se olhando muito mais que duas pessoas. Eram dois corações. Lembra? Duas almas complementares... Um sorriso, e João pegou as mãos de Teresa. Aquele era o momento em que ele não poderia fugir. Sim, era preciso falar. E João estava tomado muito mais que pela coragem. Ele estava inteiramente possuído pela verdade que vinha do seu coração, o único que nunca esteve enganado, e que se recusou a aceitar que aquilo fosse impossível. Não se podia parar de sentir o que não era uma mentira. 
- Vem comigo? 
- Pra onde? 
- Pro futuro. Quero entrar nesse desconhecido futuro ao seu lado. 
- Não sei. Acho que não estou preparada. 
- Ninguém está. Na verdade ninguém nunca está preparado. Eu também tenho medo. Mas eu sei que juntos somos capazes de enfrentar até o que nos dá medo nesse futuro. 
- Mas... 
- Pára de fugir, Teresa. Me dê uma chance! Confie em mim... 
- É... Você tem razão. Eu confio... 
- Vem... Esse é só o primeiro dia... 
- De quê? 
- Do resto das nossas vidas! 

Não tenha medo de viver, se sentir que aquilo que vem do seu coração é verdade. E não tenha medo de esperar também, pois cada coisa acontece ao seu tempo. E, se é pra acontecer, a vida vai encontrar um caminho. Sempre...

Leonardo Távora

Carne, Ossos, Tripas e Amor

Um título um tanto quanto direto para quem é capaz de assimilar estas palavras. Digo direto porque, é isto o que somos e disto não passamos; Apenas carne e osso e tripa. Nem sempre Amor. Mas bem verdade é que, alguns de nós são mais Amor do que carne. Alguns tripas por Amor e Amor até os ossos.
Iguais, eu julgo. Rim, coração, pele, sangue, intestino. Iguais. O que nos faz apontar o dedo e determinar um belo “amontoado” é o que é possível enxergar aos olhos, e imaginar a possibilidade de ser palpável.
Carne. Alguns pedaços são mais atraentes, claro. Mais corados, mais cheios de vida... dá vontade de comer só de olhar! Outros podem apresentar uma coloração nem tão chamativa assim; Talvez seja pequeno demais, ou com uma camada de gordura muito grande, ou até mesmo, pode ser aos seus olhos, nojento. Carne, e só.
Mas o que “vale”, o que realmente nos prende, é o abstrato, o alucinógeno. Quero aqui registrar, que eu gostaria muito que cessassem em mim as vontades loucas de tentar explicar sentimentos. Se possível será, não sei. Mas gostaria.
O abstrato alucinógeno. É como um cigarro de maconha. Papel, erva, fogo e saliva. Mas o que te leva à outra dimensão, e te faz flutuar, talvez perder o juízo, são as substâncias que adentram sua boca, e tomam conta de você por inteiro. A fumaça. Comparo isto aos sentimentos. Carne, osso, tripa e só. Só! Não somos nada mais do que isso.
Mas, um timbre de voz é suficiente; A forma como se arregaça a boca a se mostrar em dentes é suficiente. Uma gentileza é suficiente. Você inala doses de fumaça, e pronto. O amontoado te derruba. Te faz esquecer a condição existencial de apenas carne e osso, e te entorpece, a ponto de cometer loucuras. É bem possível que você se torne um dependente, e por um momento não crê que sua existência seja possível sem o amontoado e a sua “fumaça”.
Erva, papel, saliva e fogo, eu desconheço. Mas conheço bem a dependência avassaladora. Sim, por amontoados. Por um pedaço de carne, ossos e tripas. Deste amontoado saía uma fumaça que me entorpecia, e me permitiu loucuras.
Mas tudo o que me prendia a você era o abstrato alucinógeno que fluía dos teus canais. No mais, és apenas tripa e pele, como eu. Reconheço que és o amontoado de carne mais bem feito, corado, e apetitoso. Mas são só... Formas. Eu também as tenho. Pele e tripa. Tenho.
Vencido pelo cansaço. Cansaço de surrar os meus pedaços. De Amar até os ossos.
Quero agora, canalizar isto tudo às necessidades físicas.
Para a sede, água; Para a fome, comida; Para carência, queridos. Para desejo, carne, e ossos, e tripas, e só!
Amor, não. Não agora. Não para com amontoados. Estou em processo de reabilitação.

Cláudio Rizzih.

Uma história de dois corações

Era uma ensolarada tarde. Ela parecia triste com aquela situação, mas sua decisão já estava tomada. Pensar mais um pouco... Não. Era impossível continuar nesse erro. Por quê? Não é preciso explicar. Sentimentos não são coisas que se explicam, apenas sentimos. E sentimos porque somos humanos, porque pensamos, enfim, porque sentimos.
- Por que você não está feliz comigo?
- Sinto que você já não me faz mais tão feliz.
- Algo que deixei de te dar?
- Claro que não. Bom, pelo menos materialmente não.
- Afetivamente?
- Sim. Vejo que você não se preocupa mais comigo. Sinto falta dos seus carinhos. Falta do seu abraço. Do seu beijo. Sinto falta de você!
- Mas eu tenho que trabalhar. Chego cansado. Não dá pra considerar isso? É difícil ser legal o dia todo. Tenho que agradar patrão, colegas de trabalho...
- Você tem que agradar todo mundo, menos a mim. Não dá mais.

Se você for parar para pensar, fica louco. Quanto vale uma vida? Quanto vale uma história de amor? Quanto vale se arriscar para vivê-la? Que sentido tem tudo isso? São coisas que parecem pequenas, mas, ao contrário do dinheiro e do status, formam a verdadeira felicidade. Você é feliz? Pense nisso. Ela resolveu dar um basta naquela vida. Chega. A complicada relação estava no fim. Ele já não sabe como argumentar. Ele também não é feliz com aquela vida. Mas é acomodado. Não consegue perceber que o que está ruim pode sim melhorar. Basta querer e batalhar. Assim é que se é feliz? Pode ser...
Felicidade não é ter um carro do ano. Não é possuir um produto da moda, seja ele qual for. Esse sentimento não se compra, nem se vende. Pode ser doado, quando um coração ama, e faz com que esse sentimento seja sentido para além do corpo em que habita. Felicidade é um sentimento que se descobre quando o corpo, a mente e o espírito estão em harmonia. Esta é uma história de felicidade. Mas por que parece tão triste? Porque é uma história de descobrimento, pois felicidade não é algo que se ganha, assim, de presente. É algo que se descobre, que se conquista.
Voltando à história, ela agora já está na porta, pronta para dar adeus àquela vida tão sem graça que vivia. Pronta para colocar um fatídico ponto final em uma história que já não rende mais os bons frutos. Ele pergunta: “E se eu mudar?”. A resposta é um aceno negativo com a cabeça. Será que não existe mais nenhuma possibilidade de haver um ambiente feliz ali? Talvez até exista uma sobrevida nessa relação. Mas a melhor pergunta a se fazer aqui é: Vale a pena tentar?
De repente, ela se vira. Corre em direção a ele e pára. Os dois se olham intensamente. Eles se falam com os olhos. O olhar também fala, sabia? Incrível, mas por um minuto eles pararam de pensar com a cabeça para deixaram o olhar falar. E o coração falou. Num impulso, num beijo, tudo ficou tão mínimo. Tanto que os problemas desapareceram. Pelo menos naquele momento.
- Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido as verdades que insisto em dizer brincando. Sempre achei essa frase interessante. Hoje eu entendo.
- Mas, você acabou de me beijar.
- Para te provar o que eu estou sentindo. O que eu estou te falando... Você não entendeu nada.

Ela abaixou a cabeça e saiu. Agora definitivamente. Foi triste sim, mas às vezes é importante receber uma resposta assim de alguém que gostamos muito. Isso ajuda-nos a entender que não importa o quanto você ame uma pessoa e se esforça para ser o melhor para ela, se o sentimento não for recíproco, de nada vale. Nada mesmo. Ao invés de vivermos uma história bonita, muitas vezes vivemos um verdadeiro inferno particular, repleto de brigas e desentendimentos sérios, muitas vezes sem o respeito mínimo que um precisa ter pelo outro.
Ele então se pos a chorar. Homem não chora, dizem os mais duros. Quanta bobagem. Quanta hipocrisia. Ele a amava muito, mas muito mesmo. Talvez não tenha podido dizer o quanto era grande esse amor. Talvez ele não soubesse como demonstrar. Tudo o que queria era que ela sentisse que ele a ama também. Na verdade, tudo o que ele queria era que ela o amasse também. E tudo o que ela queria era que ele sentisse o amor que ela lhe dava gratuitamente. Mas um já não mais conseguia enxergar o sentimento do outro. É possível sim que esse sentimento já nem existisse mais. Seu coração doía, e isso já era um motivo suficiente para que lágrimas rolassem de seus olhos.
Vendo isso podemos nos perguntar: Vale a pena amar? Vale a pena sentir um enorme afeto por outra pessoa? Pra que? Por quê? A grande resposta é que talvez o amor seja a maior de todas as dores que o ser humano pode sentir. É muito complicado amar. Claro, prazeroso também. É tenebroso sentir que a pessoa que você ama pode não sentir nada, nenhum mísero afeto por você. É horrível... Terrível. Essa é uma história que vale a pena. Não porque conta o fim de um romance, mas porque mostra o quanto o homem ainda precisa aprender sobre si e, principalmente, sobre os seus semelhantes.

Profissionais do coração

Quando se fala de coração, logo se pensa no amor. E as várias formas de amor logo são adoradas ou odiadas pelas pessoas. Por diversos motivos. Dos dois lados. Até existem sim motivos para se idolatrar esse conceito, assim como pra detestá-lo. Mas, de toda forma, o amor permeia a vida humana desde que nos reconhecemos como tal. Claro, como tudo na vida, esse é um conceito que sofre mutações através dos tempos. Não tinha como ser diferente, pois nós mesmos mudamos nossas formas de pensar de modo tão veloz que nos assusta, por vezes. Daí que a visão do amar hoje é muito diferente da época de Machado de Assis e José de Alencar. Ainda mais o tipo de amor que desejo tratar aqui.
Existe um grupo de profissionais que é unido unicamente pelo coração. São os artistas. Sejam na pintura, no desenho, no teatro, no cinema, na TV, no circo, na música ou na dança, todos se reconhecem como artistas unicamente por causa do coração. Sim, pois, apesar de fazerem parte do escopo da arte, todas estas manifestações culturais são diferentes. Inclusive cinema, teatro e TV são diferentes entre si. Mas por que então o coração os une? Simples. Todo artista, de verdade, quando está trabalhando, faz tudo com o coração, e não com a razão. Ele se doa em prol de sua personagem, sua música, seu picadeiro ou sua tela. Precisa se entregar de corpo e alma. E é isso que encanta o espectador.
Ninguém vai a um evento cultural se não sentir a doação do artista. É no timbre da voz, nos gestos cênicos, nas pinceladas e nos diversos malabarismos que o artista conquista o seu público. E não se consegue isso apenas racionalmente. É preciso que haja sentimento na coisa. É preciso colocar amor na performance. É preciso estar lá com o coração. Até mesmo porque quando se faz com amor, se conquista muito mais facilmente os corações da platéia. E cativa-os durante todo o evento. Uma peça em que o publico possa se enxergar na trama tem muito mais sucesso que outra onde ele fique em sua condição de espectador, puramente, numa obra totalmente desconexa que passa por seus olhos em cima do palco.
Enfim, tudo na vida depende do envolvimento emocional. Não se faz bem nada se não se gostar do que se está realizando. É claro que a razão influencia tudo, que é pela razão que somos capazes de pensar e tudo mais, mas sem o coração, tudo perde o brilho. Aliás, o brilho da vida está no amor. Nas várias formas da manifestação deste sentimento. E assim é um artista. Quando se faz arte, seja sua arte diferente de todas as outras, se faz uso do coração. É isso que liga vários tipos de artistas espalhados por aí. Pergunte a um destes o que o move? Ainda mais no Brasil, que não incentiva a cultura como deveria. Certamente ele te falará do amor que ele tem pela profissão. Mesmo com todas as dificuldades, inclusive a financeira.
São profissionais do coração. Sabem usá-lo em sua plenitude. São pessoas que não conseguem viver de modo diferente. Se o amor é um sentimento perigoso, por deixar que a paixão o mascare, é um sentimento nobre, que move as pessoas a encantar outras pessoas, e fazer do mundo um lugar um pouco melhor para conseguirmos viver. Valorize o artista que você conhece, e até mesmo o que há dentro de si mesmo. Sem ele, certamente metade da sua própria alegria de viver não existiria.