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Um monte de amor

O amor subiu a montanha
Chegou ao topo, feliz
E ali ficou por um bom tempo
Contemplando a beleza
A grandeza de tal ato, é fato,
Deixou-o orgulhoso de si
Mas, o amor é incoerente
E de repente sente
Lá em cima, momentos depois,
Que ali não é seu lugar
Ele é do mundo, da vida,
De todos e de qualquer um
Lá na cumeeira, à beira,
Perguntou-se e agora?
Vou pra onde, se aqui é o limite?
E perdeu o brilho nos olhos,
Ficou frouxo, chocho
E então desceu, coxo,
Meio manquitola
Desequilibrou-se, perdeu o prumo
E meio sem rumo
Rolou a ribanceira, ralou-se todo
Na queda, no tombo, no escombro
Ganhou mais uns arranhões
Como se ainda tivesse poucos
Apoiando-se nas pedras, nos tocos
Já cego, tateando o caminho
Chegou no fundo do poço
Sozinho

Amor pueril

Talvez se ele fosse mais velho ou
Simplesmente menos acanhado
Tudo seria mais simples ou,
Ao menos, não tão complicado
Mas, era o que era
Jovem, tímido, inexperiente
Pra essas coisas de amor
Ainda que amor inocente
Com o qual não sabia lidar
Na cama à noite se revirava
Metade ansiedade, metade agonia
Pensava em falar que a amava
Mas, não sabia se a ideia era boa 

Páscoa de Reflexão

Acordo com frio.
Envolto em uma densa névoa
Que paira sobre nossas cabeças
E nos confunde, nos engana.
É tempo de ressurreição.
Hora de pausa, reflexão.
Por que Ele entregou sua vida?
Por que, hoje, diante das muitas
Alternativas que se apresentam,
Entrego a minha? Por quem?
Sou um refém privilegiado.

Relaxa! A vida te leva.

Acordei leve e, por isso, escrevi tranquilo. Leiam estes versos como um agradecimento pela felicidade que me é proporcionada a cada dia de poder estar aqui. Obrigado por permitirem que eu faça parte da vida de vocês, mas, principalmente, obrigado "Força Superior" por permitir que eu me relacione com pessoas tão iluminadas que me abrem os caminhos a cada passo. Sem vocês eu não seria nada.

Que me desculpem os mestres, mas usei trechos de boas músicas que me acompanharam no trajeto de casa ao trabalho hoje. Diversas que mostram o quão multipolar é a minha personalidade. Espero que gostem.

A falsa farsa

Faz tempo, mas me lembro
Na aurora tua palavra era ouro
Reluzia por trás da cortina de medo
Iluminava a escura face da dura realidade
E, como numa ilusão de Houdini, palavras mágicas
Transformavam em pó a sombra das aflições de outrora
Daqueles dias só restaram rastros invisíveis de mentira e assombro

Hoje conheço bem tua ópera, tuas falas ensaiadas, és artista num palco
Encenas bem teu papel, admito, mas não penses que me enganas
Bem sei que por trás de tuas palavras, teus risos e teus choros
Há intenções escusas, ocultas vontades, incertas razões
Eu sou fantoche que manipulas sem pudor
Apenas mais alguém em tuas mãos
Objeto inanimado, nada mais

Dormindo com a morte


Adormeci ao lado dela, a morte,
Com a cabeça ainda viva, porém.
Pouco dormi e com ela sonhei.
Mais uma noite entregue. Refém.

Acordei durante a madrugada
E a toquei com esperança.
Madura de suas decisões,
Não me deu alguma confiança.

O que sinto com você

Chocolate quente no inverno
Abraço forte de saudade
A primeira paixão da infância
Descer a ladeira de bicicleta
Depois da tempestade, bonança

Cheiro de café pela manhã
Vento fresco em dia quente
Pé descalço sobre a relva
Estourar plástico-bolha
Fera solta em plena selva

Multidisciplinar

Quando fui convidado
Para no mundo adentrar,
Não me foi explicado
Que a uma coisa por vez
Eu deveria me prestar.

Das possibilidades da vida
Permito que meu coração
Escolha por si o tempo
E aponte a intensidade
Da minha determinação.

Não cabe num abraço

Não cabe na circunferência
Dos braços curtos demais
De corpos tais e quais

Não há religião ou ciência
Que a sensação explique ou tente
Que tal emoção recrie ou invente

Haja calma e paciência
Quando se está distante
Dura a eternidade cada instante

O poeta

O poeta poetiza
Escreve, esmera
Digere, digita
Brinca, bulina
E assim, assado
Faz e fabrica
Poemas e poesias
O poeta mente
Finge ser outro
Finge sentir
Finge saber
É o que não é
Encarna, dá vida
Personifica cores
Odores, amores
E os vive intensamente
É ator de si 

Volta

Adeus, cidade árida
Casa sem lar
Toca.
Deixo-te sem remorso
Cansei dessa existência
Torpe.
Não quero mais viver
Com coração apertado
Seco.
Corpo moído, osso doído
No estômago
Soco.

Imensa Minusculeza

Um poeta já perguntou
Quanto há de lágrima
No salgado desse mar
O vento sussurrou a resposta
Que ninguém ouviu
(Só o peixe cinza
No bico da gaivota)
Com os pés de areia
Entro no mar de imenso azul

As causas do seu amor

Por que ainda me ama
Se nem ao menos atenção
Eu lhe dou na medida em que
Mereces cada dia mais?

Não entendo as causas
Pelas quais ainda me tolera.
Ou entendo?
Difícil acreditar em mim.

No banco da praça

Sentado no banco da praça
Pensando em quando era moleque
O vovô observa e até acha graça
Nas travessuras do netinho serelepe

O guri corre pra lá e pra cá
Pula, se joga, rola no chão
E o vovô ali parado a se perguntar
Como o menino tem tanta disposição?

O velhinho se lembra com saudade
Dos velhos tempos de outrora
Um dia lá atrás já teve esta idade
Bem diferente do idoso de agora

Manifesto ao retrocesso

Não conheço quem prefira
Admirar prédios
A vislumbrar montanhas
Não sei de gente
Por mais estranha que seja
Que goste menos de
Colocar o pé descalço
Sobre a grama fresca
Do que de fazê-lo sobre
O quente piche do asfalto
Algum desnaturado trocaria
A sombra de uma frondosa árvore
Pela de uma marquise de concreto?
Acho que não. Duvido.

Amor e ódio

Que me desculpem os pessimistas
Mas, o amor já venceu a guerra!
Sim, é verdade, o ódio está à solta
Zanzando pelas ruas, blasfemando
Reclamando, ironizando o quanto pode
Já está, porém, derrotado, humilhado

Afinal, quantas canções há sobre o ódio?
Quantas poesias em sua homenagem?
E nos filmes e livros e histórias infantis
Quantas vezes o ódio sai campeão?
Se há este sentimento, não há felicidade
Daí que o ódio não tem final feliz

Minhas velhas cartas

Dos pequenos prazeres
Que ficaram para trás
Aquele que mais sinto falta
E nem tanto tempo faz
É de receber cartas
Como as que eu recebia
Papel com cheiro de tinta
Frases com gosto de alegria
Notícias e causos que vinham
Do outro lado de lá
De gente querida e amiga
Cheia de causos pra contar
Às vezes eram de tristeza
Outrora de amor e paixão
Tinha carta sobre vida alheia
Fofoca fresca escrita à mão

Meu amigo zumbi

Ora, vamos deixar disso
Chega de tanto maniqueísmo
Nem tudo é só bom e ruim
É certo que ele faz maldades
Mas, eu afirmo, mesmo assim
Zumbi também tem qualidades

Zumbi não tem preconceitos
De raça, idade, sexo e religião
Para ele somos todos feitos
De carne e osso, e isso é bom
E apesar de nossos defeitos
Ele nos aceita de bom tom

Nuvens e abelhas

Saudade é um ferrão de abelha
Que alguém coloca na gente
Pra nunca mais sair, fica ali,
Doendo pra todo o sempre
Na memória e no coração ferroados

Esses dias um ferrão tem doído muito
Já faz vários anos que não te vejo
Dei-me conta que nem sei mais
Por onde anda, onde mora, como está
Nós, que já fomos da mesma colmeia

O hipócrita

Eu reclamo da falta
De ordem e de progresso
Contudo, eu corto fila
Protesto contra aqueles
Que me caluniam pelas costas
Falando mal deles pra terceiros
Acho absurdo quando
Pessoas desobedecem às leis
Mas não paro em sinal vermelho