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Fogo nos olhos

Por várias vezes, caminhando por aquela rua, deparei-me com seus olhos tristes.
Ele devia ter uns 40 anos, talvez um pouco mais, porém aparentava carregar um sexagenário de dores no rosto pálido. Seus cabelos ralos e acinzentados eram presos em um pequeno rabo de cavalo feito às pressas, deixando fios soltos ao vento. Vestia-se de modo displicente, nunca o vi usar sapato.
Vendia livros, o homem dos olhos vazios que tanto me chamavam a atenção. Todo começo de mês, na calçada em frente ao shopping, por volta das dez da manhã, ele estendia sobre o chão um tecido aveludado, de um carmim desbotado, agachava-se e começava a tirar de uma grande bolsa vários exemplares de publicações antigas, todos usados, mas ainda assim em bom estado de conservação. Só não aparecia em dias de chuva e aos domingos. Passava longas horas ali e vendia pouco, quase nada. A cada venda, seu olhar se afundava mais.