Fazendo poesias: "Um artista aprendiz!"

Um artista aprendiz
(Leonardo Távora)

Voar
Onde o meu sonho for
Lutar
Ainda que exista dor
Brilhar
e ao mundo dar a cor

Pois vencer é bem mais que acertar
É sentir o calor que me traz o gostar
É viver para ser o encanto de alguém
Como um ídolo e ter o vibrar que faz bem

Querer
E correr para ter
Fazer
Dar o sangue pra ser
Poder
Chegar ao fim e dizer

Que valeu tudo aquilo que eu fiz
Se um dia eu quis ser aprendiz
Eu mostro pra que eles percebam
Que nos palcos eles são quem desejam

Sorrir
Como quem está feliz
Surgir
Sempre que o pano abrir
Nutrir
Sentimento e diretriz

E mostrar ao mundo o meu talento
Sem nunca jogar as palavras ao vento
Um aprendiz que encanta o mundo assim
Será feliz... Quem sabe até o fim

Sobre casa e trabalho

Pessoal, segue abaixo uma pequena esquete que escrevi há pouco tempo. Eu relutei em colocá-la aqui porque é pequena pra ir ao palco, mas demasiada grande para estar em um blog. Bom, tomara que vocês gostem.


Segue o texto:

Cena:

Estão sentados à mesa de reunião Osvaldo, Joana e César.
Osvaldo olha uns papéis, analisando uns casos que eles vão discutir na reunião.
Joana está falando ao telefone com sua irmã.

JOANA: - Então, Clara, vamos ao shopping hoje? (PAUSA) Não, não! Eu não quero ficar em casa não. É muita depressão ficar assistindo TV. Aí é tudo muito parado.

César joga bolinhas de papel em Joana.
Joana faz gestos para César parar, e continua falando ao telefone. (Aqui ela já fala mais baixo).

CÉSAR: - Que foi? Não se pode mais nem brincar nesse escritório.
OSVALDO: - Você parece que não saiu da escola, César!
CÉSAR: - Vocês que levam a vida muito a sério. Que graça tem em ser certinho. Melhor ficar em casa (olhando para Joana).
OSVALDO: - Encarar a vida com seriedade faz bem também. Principalmente para os dentes (Ironia).

Célia chega ao escritório, correndo.

CÉLIA: - Demorei muito?
OSVALDO: - Eu estava estranhando seu atraso. Você é sempre tão pontual. O que aconteceu?
CÉLIA: - Meu filho está gripado, com febre. Tive que deixar a empregada cuidando dele.
JOANA: - Tadinho! Você devia ter ficado lá, com ele.
CÉLIA: - E o trabalho fica todo atrasado, né!
CÉSAR: - Ah! Nem tem tanta coisa para acumular, Célia.
CÉLIA: - Eu gosto de trabalhar. E ele só está gripado, não morrendo.
OSVALDO: - Bom, então eu acho que podemos começar a reunião.

Todos tomam suas posições na mesa de reuniões.
Osvaldo separa uns papéis para começar a falar.

OSVALDO: - Bom, podemos começar discutindo esse gráfico do nosso desempenho. Acho que estamos bem, pois no último mês fomos bem requisitados e...

Toca o celular de Célia. É a empregada.

CÉLIA: - Alô. O que foi? (PAUSA). Ué, dá o remédio pra ele. (PAUSA). Dá um banho nele, pra ver se essa febre baixa. Qualquer coisa me liga. (PAUSA). Tá bom, beijo, até logo!

Osvaldo olha com cara de quem não gostou de ser interrompido.

CÉLIA: - Me desculpa Osvaldo! O motivo é importante.
OSVALDO: - Só que não dá pra trazer a casa pro trabalho. Desse jeito você não consegue fazer bem o seu trabalho.
JOANA: - Discordo de você, Osvaldo. As coisas tem que ser dosadas, pois nosso trabalho é uma extensão da nossa casa, e nossa casa é uma extensão do nosso trabalho.
CÉSAR: - Tudo tem uma dinâmica, mas só você mesmo para dissociar uma coisa da outra, Osvaldo. Não dá. Poxa, vivemos a maior parte do nosso dia enfiados no trabalho. Se não ligarmos pra casa, esquecemos até que temos família.
CÉLIA: - Olha, eu gosto muito do meu trabalho. Tanto que não tenho hora pra sair daqui. Mas esse negócio de separar casa de trabalho é algo que não dá pra ser, a não ser que você seja solteiro. Aí não tem com o que se preocupar em casa.
JOANA: - Bom, eu não moro sozinha. Tenho meus pais, que cuidam da casa. Mas me preocupo com tudo lá.
CÉSAR: - O mais importante é o relacionamento. Cara, passamos tanto tempo aqui nesse escritório, trabalhando, que se desligarmos de casa, daqui a pouco, nem vamos lembrar que ela existe mais.
OSVALDO: - Não, vocês estão se confundido. Eu falo de foco. Precisamos ter foco com as coisas. Claro que ninguém esquece da vida fora do trabalho. Mas precisamos focar aqui no que estamos fazendo.
CÉSAR: Impossível. É como se fossemos capazes de viver duas vidas, de sermos duas pessoas diferentes. Tá, nós passamos mais tempo na rua que em casa. Mas eu acho que é só porque ninguém consegue ficar de papo pro ar o tempo inteiro. Tem que ocupar a cabeça.
JOANA: Eu concordo com o César. Ocupar a mente é uma coisa, esquecer nossa vida pra “focar” no trabalho é outra muito diferente.
CÉLIA: Gente, mas foi só um telefonema. E só porque meu filho tá gripado. Não precisamos debater isso.
JOANA: Não, Célia. A questão aqui não é o seu filho, mas o fato de que o Osvaldo quer que a gente viva uma vida igual a um robô.
CÉSAR: Isso, Joana... Disse tudo.
OSVALDO: Eu não quero que ninguém seja um robô. Só acho que casa é uma coisa, e trabalho é outra. Eu não entro nesse escritório com minha casa junto, e não chego na minha casa com esse escritório na cabeça. Eu sei separar tudo.
CÉSAR: Pois é. Quanto da vida familiar você perde quando está aqui no trabalho? Sim, porque você passa muito mais tempo do seu dia aqui conosco que com sua família. (PAUSA). É disso que eu to falando, cara. Nós vivemos num mundo onde o trabalho é tudo. Mas e as outras coisas? E nossa vida pessoal?
OSVALDO: Daqui a pouco você vai pregar cartazes de “abaixo o trabalho”, ou “Vamos viver só em família”. César, a sociedade é muito mais que o nosso universo particular. É um conjunto. E pra esse conjunto dar certo nós precisamos ter foco nas coisas que estamos fazendo. Senão fica tudo pela metade.
JOANA: Aí você está se contradizendo, Osvaldo. Porque é exatamente por estar tudo interligado que não conseguimos nos soltar da sociedade e viver “com foco”.

Célia levanta da mesa.
Bate com a mão na mesa, para chamar a atenção para si.
Todos ficam em silêncio, olhando pra ela.

CÉLIA: Gente... Acho que já deu, né! (PAUSA). Todo mundo tá falando a mesma coisa de diversas formas. Tudo aqui que vocês estão discutindo não passa de modo de vida, pessoal. Todos os entendimentos não passam disso. (PAUSA). O Osvaldo tem uma personalidade que o faz ter foco em tudo o que faz. O César já não consegue ter foco em nada, mas faz seu trabalho do mesmo jeito. A Joana tem casa, família, pai, mãe, irmãos. Tem problemas lá, mas está aqui sempre, cuidando do seu trabalho. (PAUSA). Todo mundo tem problemas, e todo mundo sabe como resolvê-los. Claro que a vida de uma casa é diferente da vida de um escritório. Mas todo mundo aqui concorda que tudo faz parte de um todo, que se chama SOCIEDADE.

Todos fazem sinal positivo com a cabeça.

CÉLIA: Então, acho que chegou a hora de pararmos com essa discussão boba e voltarmos ao trabalho. Meu filho já deve ter tido mais umas duas crises de febre enquanto vocês discutiam aí, e eu to aqui, esperando.
CÉSAR: É, vamos voltar ao trabalho!

Todos tomam seus lugares na mesa para recomeçar a reunião.

CÉSAR: Mas que o Osvaldo é um bitolado, isso é!
TODOS: CALA A BOCA, CÉSAR!!!
CÉSAR: Tá bom! Tá bom! Já calei
OSVALDO: Bom, então continuando... Joana e Célia estão de parabéns. Venceram algumas boas causas esse mês...

Toca o celular de Célia novamente!

----FIM---

As belezas pela internet: "Fechando um ciclo"

Hoje, para inauguara o mês de Novembro nesse blog, estou colocando um texto do Thiago de Los Reyes (com a permissão dele), pois é este uma das joias que conseguimos encontrar passeando pela intenet. O link para o blog dele está na barra lateral. Prestigiem, pois o que ele escreve é realmente um convite ao autoconhecimento, além de ser uma obra de arte que vale a pena conhecer.

Segue o texto:

Fechando um ciclo
(Por Thiago de los Reyes)

Preservei meu melhor silêncio, quando nele vi mais sentido e exatidão de ser.
Falei, quando por vezes deveria simplesmente calar pra dizer tudo.
E por vezes acabei recebendo o que não merecia escutar, ás vezes de quem sequer daria uma moeda furada pelo som do respirar...
Mas encontrei no silêncio algo que foi além da sua mudez nua e atraente...
Foi me calando que consegui enxergar nas palmas calorosas o reconhecimento que tanto procurei, tantas vezes em lugares errados e vazios, e todo aquele barulho se tornou poesia pra que eu pudesse desfrutar como música o que alguns poucos, que beiram a futilidade de não ser, encaram quase como uma ofensa pessoal, simplismente porque eu consigo, em alguns poucos grandes momentos, desfrutar da raridade de encontrar o sentido da vida dentro de mim e da minha arte.
A vida nos dá algumas certezas que só fazem aparecer mais perguntas.
Hoje, a maior de todas é: "Por que num lugar errado encontrei a maneira mais clara de como e com quem levar o resto da minha vida?"
Coisas do teatro, que com seu poder traça o caminho certo e desata os nós e tira de si aquilo e aqueles que desmerecem seus verdadeiros filhos queridos.
Filhos do palco, Luzes da vida...Da minha vida.