Em cartaz: "A aventura nossa de cada dia!"

É o Grande final.
E se fecham as cortinas. Em meio aos acalorados aplausos. Acabou mais uma bem-sucedida apresentação. Todos estavam felizes. No camarim os autógrafos, fotos, sorrisos, abraços... Era hora de voltar para a vida real. Tirar a maquiagem. Desmontar o personagem. Vestir a máscara comum da vida real. Aquele mundo de fantasias, perfeito, só na próxima apresentação. Era preciso dizer “até logo” diante do espelho, para aquela personagem que tomou conta do seu ser durante as últimas cinco horas, entre preparações e apresentação.
Ao se olhar no espelho, ele estava cansado, mas feliz. Por alguns momentos levou alegria e emoção para a vida daquelas pessoas. Mas já era tempo de voltar para a vida real. Retornar à sua casa e descansar. Outro dia se aproximava. Ele precisava estar disposto para enfrentar mais uma luta. Ah, seria tão bom se não se pudesse mais tirar aquela maquiagem, nem sair de cena. Seria tão melhor se a vida pudesse ser como uma animada peça teatral.
No novo dia, correria. Não se vive apenas da arte, infelizmente. É preciso ganhar o pão de cada dia para que se possa sobreviver e dar vida a esta arte. Essa era a luta dele. Dia após dia, ele lutava para estar vivo, e dar vida à fantasia que faz as pessoas sonharem. Ainda que por um instante. Ainda que por uma noite estrelada, confinados entre as paredes daquela casa de espetáculos. Era preciso vencer. Todo dia é difícil, para todo mundo. A vida é uma caixinha de surpresas. O futuro é a maior incógnita da nossa existência.
Lá ia o ator. Agora o homem normal, pronto para suas atividades diárias. Trabalha... Trabalha... Trabalha... Fazia a sociedade continuar bem viva. Fazia o dinheiro circular, na esperança de que aquele dinheiro um dia pudesse servir para que ele conseguisse expressar sua arte, dando vida a inúmeras personagens, contando diversas histórias, e fazendo as pessoas sonharem com um mundo melhor, mais justo e seguro. Fazia crescer a teia das informações diárias, que virarão história, um dia, para alguém.
Ao final do trabalho, um lanche rápido. Era preciso ir correndo para o teatro. Mais uma correria estava para começar. Maquiagem... Passagem de texto... Preparação mental... Preparação corporal... Uma brincadeirinha pra descontrair... Um momento a sós... Um momento para pedir proteção... Uma olhadinha para ver o público... (Ai, o frio na barriga.) Ele adorava sentir aquela sensação. Alguns detestavam. Ele não. Ao subir ao palco, isso logo acabaria, com certeza.
Só se sente a vida quando se vive cada momento, um dia de cada vez. Ele sabia disso. Ele amava isso. Essa era a vida que o ator sempre desejou. Uma vida de momentos, passageiros, assim como é efêmero o momento de uma peça de teatro.
Silêncio... Vai começar o espetáculo!

Fragmento de "Eternamente"

Um pedacinho da 1ª parte do meu livro. Tomara que gostem!!!
(...) Gaudêncio foi logo até a estação. Estava ansioso para rever a “princesinha” da fazenda. Ele foi logo cedo. O trem só chegava ao meio-dia, mas Gaudêncio não queria que nenhum possível contratempo atrapalhasse sua chegada à estação a ponto de fazer Beatriz esperar.
A chegada do trem na cidade foi pontual. Ao meio-dia ele estava apitando, avisando que estava próximo. Gaudêncio estava ali, a postos, esperando por uma mulher que ele viu ir embora ainda garotinha. Como se lembrar dela? Beatriz não voltou mais à fazenda. Seus pais iam visitá-la em Ouro Preto. E se ela não o reconhecesse? Gaudêncio precisava ficar muito atento a cada passageiro que descesse do trem.
Ao desembarcar, Beatriz procurou pelo pai e pela mãe, mas não viu ninguém. A moça ficou triste. Esperava uma grande recepção na sua chegada. Há tanto tempo não via seus pais. Estava com muitas saudades, naturalmente. De repente, aproximando-se dela, Gaudêncio disse:
- Bia?
- Eu mesma. – Disse com um sorriso radiante.
- Lembra de mim não? Sou o Gaudêncio.
- Gaudêncio! Nossa, você está mudado. Forte, bonito, com esse sorriso...
- Sô eu sim. Vosso pai me mandou aqui pra esperá por’ocê. Eu tava aqui há um tempão. Esse trem não chegava nunca.
- Que bom que você veio amigo! Estava morrendo de saudades de você, mas achei que só o veria na fazenda. Como você está bonito rapaz!
- Você tamém. Tá muito linda! Uma formosura.
- Ah obrigada... Bom, vamos então?
Foi lindo o reencontro de Beatriz e Gaudêncio que aconteceu ali, na estação de trem. Tanto tempo se passou. Eles ficaram tão longe, por tanto tempo... Mas aquele sentimento bonito não morreu com o tempo, talvez porque quanto um sentimento é verdadeiro, ele não morre jamais. As pessoas não entendiam o afeto que a moça dispensava ao escravo. Viam naquilo uma coisa tanto quanto diferente. Mas os dois não se importavam.
Eles ainda não sabiam, mas aquele era o despertar de um grande amor que já tinha se manifestado na infância, mas viria a crescer e se solidificar agora na juventude. É o que já estava escrito para eles, há muito tempo. O amor que os uniria agora não era mais aquele amor que se expressa nas amizades sinceras. Eles agora eram um homem e uma mulher, jovens ainda, mas formados, e prontos para viver.
Ao chegarem à fazenda, era notório ver como Beatriz estava feliz. Ela estava voltando para sua terra. Ali ela foi feliz, junto aos seus pais, correndo pelos pastos, comendo frutas colhidas na hora, bebendo o leite fresquinho, recém tirado da vaca. Aquela criança doce virou uma moça muito bonita. Certamente era o melhor partido da vila. Muitos rapazotes iriam começar a visitar o Coronel Antônio para tentar alguma aproximação com ela. Mas seu coração não estava olhando para essas coisas. Na verdade, ele já estava muito bem ocupado.
Dona Margarida era só felicidade. Era muito bom ter Beatriz de novo junto a si. Só Deus sabia o quanto essa mãe sentiu a falta de sua filha. Sua única filha. Mas naquele momento tudo era passado. Beatriz estava ali, na fazenda onde nascera. Vinha de um longo tempo de estudos que talvez fossem úteis para aquele povo. Pelo menos era o que tinha em sua mente, cheia dos idealismos próprios da juventude. (...)

Fragmento de "Assim como a luz do teu olhar"

(...) Foi com um sorriso, um gesto de carinho, que você destruiu todas as minhas armas. Absolutamente tudo foi por terra. Não havia mais o mundo malvado e incoerente. Por te amar eu consegui sair do poço escuro em que me encontrava. Por você eu renasci para a vida. E tudo isso não aconteceu no momento em que vi sua beleza, mas quando pude sentir a sinceridade em seu ser. De longe, através dos bytes da modernidade do mundo. Alguém como eu, com sonhos, com ideais, e com uma tremenda vontade de realizá-los.
Tudo isso me deixou um tanto confuso. Era tudo tão mágico, tão incrível. Não parecia real que alguém realmente pudesse gostar de mim, e não apenas brincar comigo. Não apenas me fazer de tolo. Dia após dia, fomos nos aproximando cada vez mais. Você, que era um pedacinho da tela do meu computador, virou a certeza de que a felicidade podia existir para mim. Que o mundo não era tão acinzentado, rancoroso, desacreditado e feio assim. Logo você virou a melhor parte de mim mesmo. Meu coração passou a bater no ritmo do seu. Eu segui minha vida, e minha vida só queria me levar até você. (...)
É só um trechinho. E ainda poderá ser mudado por mim. Mas estou tão feliz em conseguir acabar este conto, que decidi dar-lhes uma prévia do que eu escrevi.